quarta-feira, 25/02/26
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Como roubo, greves e fraude no Louvre agravam a maior crise na história do museu

Nos últimos meses, o museu mais visitado do mundo só tem gerado notícias ruins, reflexo daquela que talvez seja a maior crise de sua história

(FILES) In this file photo taken on April 29, 2022 Visitors queue in front of the Pyramid to enter the Louvre Museum, in Paris on April 29, 2022. – A former president of the Louvre is under investigation for money laundering and trafficking in antiquities (judicial source). (Photo by AFP)

 

FOLHAPRESS

Evitem marcar visita ao Louvre às segundas de manhã. Esse é o alerta que a guia de turismo brasileira Tatiana Agostini Zaballa tem feito aos clientes. “É quando costumam acontecer as greves”, explica. Desde o célebre roubo das joias da coroa, em 19 de outubro, tornaram-se frequentes as paralisações intermitentes dos funcionários.

Roubo, greves, infiltrações nas paredes, fraude nos ingressos. Nos últimos meses, o museu mais visitado do mundo só tem gerado notícias ruins, reflexo daquela que talvez seja a maior crise de sua história.

Nesta quarta-feira (25), o presidente da França, Emmanuel Macron, nomeou um novo diretor para o Louvre ou presidente, como é chamado em francês o cargo. Christophe Leribault, historiador da arte de 62 anos, é atualmente responsável por outro ícone do turismo mundial, o Palácio de Versalhes.

Leribault sucede a curadora Laurence des Cars, no posto desde 2021. Ela renunciou na véspera, na esteira da crise. Os problemas “começaram antes de Laurence des Cars, mas se aceleraram”, afirma o sindicalista Julien Dunoyer, funcionário do museu há duas décadas.

“Uma boa parte do orçamento vai para exposições e coisas de muita visibilidade, mas não para as menos glamourosas, como a manutenção do prédio, o encanamento, a reforma dos banheiros”, diz Dunoyer.

“Em vez de ouvirem os funcionários, de um verdadeiro trabalho de equipe, só há confronto.”

A reportagem esteve no Louvre, na última segunda-feira (23), e constatou salas com andaimes devido a infiltrações, visitantes se abanando por falta de refrigeração, banheiros que não dão conta da demanda.

“No mapa que a gente recebe, estão hachuradas as áreas em reforma”, comenta o turista mineiro Bruno Oliveira da Silva, visitando pela primeira vez o museu. São muitas as salas marcadas, como as de antiguidades gregas e romanas, pinturas espanholas e arte islâmica.

“O Louvre está meio decadente, não vou poder mentir para você”, diz Zaballa, a guia. “Os banheiros são horríveis. Muitos lockers nos vestiários estão quebrados. Onde ficam as estátuas gregas, está sempre quente.”

Piorando a experiência do turista brasileiro, desde janeiro o ingresso para não-residentes na União Europeia – que representam 40% dos 9 milhões de visitantes anuais —subiu de € 22, aproximadamente R$ 135, para € 32, ou R$ 195.

Não que os problemas fossem ignorados antes do roubo. O aumento do ingresso para estrangeiros servirá para ajudar a pagar parte de uma reforma geral do Louvre, anunciada por Emmanuel Macron em pessoa em janeiro de 2025, na Sala dos Estados, onde está exposta a “Mona Lisa”.

Naquela ocasião, diante do presidente francês, Laurence des Cars denunciou a decrepitude do museu. “Esta sala deveria ser um lugar de admiração. No entanto, é palco de intensa agitação, pouco propícia à descoberta de suas obras-primas. Embora o Louvre ainda desperte entusiasmo, por toda parte o edifício sofre”, constatou a então presidente do Louvre.

Estimado em € 1,15 bilhão, cerca de R$ 7 bilhões, o projeto Novo Renascimento do Louvre, como foi batizado, prevê para 2031 acessos alternativos à famosa pirâmide de vidro do arquiteto sino-americano I.M. Pei, inaugurada em 1989. Entre eles, um específico para a “Mona Lisa”, desafogando o restante do prédio, e um novo paisagismo.

A última grande reforma data justamente da época da inauguração da pirâmide de Pei, marco do bicentenário da Revolução Francesa. Previa-se, então, uma capacidade máxima de 4 milhões de pessoas por ano. Hoje o museu recebe 9 milhões. Com a reforma, poderá acolher 12 milhões.

A Galeria de Apolo, palco do roubo das joias, continua fechada e sem previsão de reabertura. O tapume cinza diante da entrada virou atração turística à parte. No dia da visita da reportagem, não havia nenhum funcionário vigiando.

A meio caminho entre a galeria e a “Mona Lisa”, na sala 707, um andaime do teto até o chão revela o local de uma infiltração recente. No teto, o vazamento danificou o painel “O Triunfo da Pintura Francesa”, executado por Charles Meynier em 1819; na parede, um afresco sobre o calvário de Jesus, do mestre renascentista italiano Fra Angelico.

Logo na sala seguinte, outro tapume e um aviso. “Obras em andamento. Pedimos desculpas pelo incômodo ocasionado.” Em boa parte da ala de pinturas italianas, o ar-condicionado parecia totalmente desligado e os visitantes se abanavam.

Além dos problemas físicos do gigantesco Louvre —são mais de 30 mil obras expostas em 14,5 quilômetros de salas e corredores—, Christophe Leribault, o novo presidente, terá que lidar com questões administrativas. Há duas semanas, a polícia desmantelou uma fraude na bilheteria. Foram presas nove pessoas, entre elas dois funcionários.

O golpe, segundo a procuradoria de Paris, consistia em reaproveitar ingressos usados para que grupos entrassem sem pagar. Guias teriam lucrado com o esquema durante pelo menos uma década.
Curiosamente, a fraude também afetava o Palácio de Versalhes, que o próprio Leribault dirigia até esta quarta-feira.

Quanto às joias roubadas em outubro, embora os quatro executores do crime tenham sido presos poucas semanas depois, até hoje não há notícias do butim. Do lado de fora, a calçada onde os bandidos estacionaram o caminhão-grua usado no assalto está interditada. Uma grade deve ser instalada na janela por onde eles entraram.

Um relatório do Tribunal de Contas francês criticou a gestão do Louvre nos últimos anos. Nem mesmo o projeto de reforma para 2031 escapou das críticas. O sindicalista Dunoyer também teme que o dinheiro seja mal empregado. “Não sei se temos recursos para isso, sabendo que só a reforma do prédio [atual] está estimada em € 450 milhões, cerca de R$ 2,7 bilhões.”

Visitar o Louvre continua sendo uma experiência única. Mas os problemas recentes se tornaram uma fonte de estresse para os turistas. Foi o caso das gaúchas Elizabeth Costa e Christine Travassos Souza, pela primeira vez no Louvre na semana passada.

“Tinha essa ansiedade, a preocupação de chegar e talvez não conseguir acessar o museu”, diz Costa. “Amigos deram dicas, ‘olha, vai de tarde, porque de manhã está tendo greve’. Tanto é que só compramos o ingresso ontem, para ter mais segurança’.”

 

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