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Caso Master: o roteiro da crise entre Toffoli e a PF que levou à troca de relator

A crise entre Toffoli e a PF, que começou com reclamações sobre inércia e provas lacradas no STF, terminou com relatório entregue a Fachin

Montagem sobre fotos de Luis Nova e Breno Esaki/Metrópoles

 

A crise entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e a Polícia Federal teve rápida escalada e foi ponto determinante para a saída do magistrado da relatoria do caso Master.

A tensão começou a ser instalada desde que Toffoli foi sorteado relator e decretou o sigilo máximo da ação, em 2 de dezembro de 2025. Em seguida, perto do Natal, o ministro convocou uma acareação entre o dono do banco Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos.

A determinação dos encontros foi dada em 24 de dezembro de 2025, para que o confronto de versões ocorresse em 30 de dezembro. Porém, os três convocados não tinham prestado depoimento ainda. Restou à PF definir, no dia 30, no momento das oitivas, se havia contradição ou não para identificar a necessidade de acareação.

O acirramento na relação se agravou em meados de janeiro, quando Toffoli acusou a PF de descumprir os prazos dados por ele para deflagrar a segunda fase da Operação Compliance Zero.

Em 14 de janeiro, Toffoli disse, em decisão, que “faltou empenho” da PF em cumprir decisão judicial e que essa “inércia” comprometeria o andamento das investigações.

Na mesma data, após as críticas ao trabalho da corporação, Toffoli mandou “lacrar” e “acautelar” os materiais apreendidos no STF. Aqui, tratava-se dos celulares apreendidos na operação. Os aparelhos eram os de Daniel Vorcaro e do empresário Nelson Tanure. Pegou mal a ordem do ministro.

Competência de extrair dados

Não é de praxe lacrar no STF itens apreendidos em operações. Ainda mais quando a justificativa para o acautelamento é a de “preservação das provas recolhidas”.

A PF reclamou oficialmente. Foi ao STF dizer que a competência de extrair os dados dos materiais eletrônicos era dos peritos da corporação.

Não adiantou. Ainda assim, em uma “solução meio-termo”, Toffoli determinou que os materiais apreendidos ficassem sob tutela da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Porém, o desgaste se manteve e o ministro precisou voltar atrás novamente. Com notas de repúdio de representantes da PF e críticas de especialistas, Toffoli designou quatro peritos, escolhidos por ele, para analisar os materiais.

A crise seguiu. A PF fez a extração dos dados dos celulares apreendidos. Em um relatório de 200 páginas, o nome de Toffoli foi mencionado nas mensagens.

O constrangimento fez Toffoli soltar nota oficial, admitindo ser sócio da empresa Maridt, que vendeu participações por meio de fundos no resort Tayayá, no Paraná, para Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.

Com as informações em mãos, o presidente do STF entendeu que deveria abrir uma arguição de suspeição contra Toffoli, em 10 de fevereiro. A arguição de suspeição é um mecanismo processual usado para afastar juízes por falta de imparcialidade, quando há interesse no caso, amizade íntima ou inimizade capital.

Em 12 de fevereiro, a crise institucional do STF se agravou. Não teve jeito. O relatório da PF foi a cereja do bolo para que o ministro pedisse para deixar o cargo. A moeda de troca para o fim da relatoria foi o encerramento da arguição de suspeição originada pelo relatório com as extrações de celulares que Toffoli, lá no início, queria manter no STF.

Veja linha do tempo da crise:

18/11/2025 – Caso Master chega ao STF. Toffoli é sorteado relator.

14/1/2026 – É deflagrada a segunda fase da Operação Compliance Zero, que visa produzir provas dentro da investigação do que pode ser considerada “a maior fraude bancária da história”, segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Foram alvo o pai, a irmã, o cunhado e o primo de Vorcaro, Fabiano Zettel, todos suspeitos de envolvimento em operações financeiras fraudulentas ligadas ao Banco Master.

14/1/2026 – Toffoli reclama da PF. Diz que a corporação descumpriu o prazo de 24 horas para deflagrar operação autorizada por ele, o que pode ter comprometido o andamento das investigações. Na decisão, Toffoli alega que, se houver comprometimento de provas, a culpa seria de uma “inércia exclusiva da Polícia Federal”.

“Causa espécie a este relator não só o descumprimento do prazo por mim estabelecido para cumprimento das medidas cautelares ordenadas, posto que resta claro que outros envolvidos podem estar descaracterizando as provas essenciais ao deslinde da causa, como a falta de empenho no cumprimento da ordem judicial para a qual a Polícia Federal teve vários dias para planejamento e preparação, o que poderá resultar em prejuízo e ineficácia das providências ordenadas”, disse Toffoli em decisão.

O ministro completou: “Observo, ainda, que eventual frustração do cumprimento das medidas requeridas decorre de inércia exclusiva da Polícia Federal, inclusive diante de inobservância expressa e deliberada de decisão por mim proferida em 12/1/2026, que determinou a deflagração da presente fase no prazo de 24 horas, e que eventual prejuízo às demais medidas em decorrência do presente pedido são de inteira responsabilidade da autoridade policial”.

Lacrados e acautelados no STF

14/1/2026 – No mesmo dia, Toffoli determinou que todos os materiais apreendidos na segunda fase da Operação Compliance Zero fossem “lacrados” e “acautelados” na sede da Corte, em Brasília.

14/1/2026 – Toffoli, após pedido da PF, muda de ideia. Durante a noite, determina que os materiais devem ficar sob custódia da PGR.

“A manifestação é pela autorização para que a PGRproceda à extração e análise de todo o acervo probatório colhido nos autos em espécie, com posterior disponibilização”, decide.

15/1/2026 – Diante de controvérsias e reclamações, Toffoli indica nomes de peritos da PF para acompanhar a extração de dados e a realização da perícia do material apreendido no âmbito das investigações do Banco Master. Toffoli indicou os seguintes profissionais:

  • Luis Filipe da Cruz Nassif;
  • Tiago Barroso de Melo;
  • Enelson Candeia da Cruz Filho; e
  • Lorenzo Victor Schrepel Delmutti.

“Ressalto que os referidos peritos terão livre acesso ao material apreendido e deverão contar com o apoio da PGR para acompanhamento dos trabalhos periciais”, disse Toffoli em despacho.

16/1/2026 – Toffoli reduz de cinco para dois dias o prazo para que a PF colha os depoimentos de investigados no caso do Banco Master.

17/1/2026 – A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) classificou como “atípicas” as decisões de Dias Toffoli sobre a análise de provas obtidas em operações contra fraudes financeiras no Banco Master.

Em uma nota pública, a associação de delegados da PF afirmou que os despachos de Toffoli causaram “legítima perplexidade institucional”. A ADPF avaliou que as “providências” adotadas por Toffoli “destoam dos protocolos institucionais da Polícia Federal”.

Para a entidade, as medidas definidas por Toffoli representaram uma “afronta às prerrogativas legalmente conferidas aos delegados de Polícia Federal para a condução técnica, imparcial e eficiente da investigação criminal”.

O relatório do estopim da crise

11/2/2026 – A PF, por meio de seu diretor-geral, Andrei Rodrigues, apresentou relatório ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, que acabou gerando uma arguição de suspeição contra Toffoli.

No meio das conversas encontradas no aparelho de Vorcaro, apreendido na segunda fase da Operação Compliance Zero, há menções ao nome do ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF.

12/2/2026 – Toffoli dobra a aposta e manda a PF encaminhar, na íntegra, a perícia dos aparelhos celulares e de outras mídias apreendidas relacionadas ao caso Master, entre elas as do banqueiro Daniel Vorcaro.

12/2/2026 – Depois do relatório da PF, Toffoli assume, pela primeira vez, em nota oficial, que é sócio da empresa Maridt, que vendeu participações por meio de fundos no resort Tayayá, no Paraná, para Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, alvo da Compliance Zero.

12/2/2026 – Fachin chama reunião com os demais ministros do STF para tratar do caso.

12/2/2026 – Após reunião tensa, o ministro Dias Toffoli deixa a relatoria do caso Master no STF. A Arguição de Suspeição contra ele é encerrada. No lugar dele, André Mendonça é sorteado do Caso Master.

 

Com informações do Metrópoles 

 

 

 

 

 

 

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