A exposição ‘Samurai’, em cartaz no Museu Britânico de Londres, conta o que é verdade e o que é mito na longa história dos samurais, que transcendeu o Japão para se integrar à cultura popular do Ocidente.

Por Matthew Wilson
O sólido legado dos samurais é um fenômeno singular na história cultural da humanidade.
Nenhum outro grupo social da era medieval foi tão celebrado ou mitificado na cultura popular, de forma tão persistente, desde as impressões ukiyo-e (um estilo de xilogravura muito popular no Japão entre os séculos 17 e 19) até os videogames, filmes e programas de TV contemporâneos.
A fama sempre traz consigo a mitificação e isso também ocorreu com os samurais.
Será que esses fabulosos cavaleiros do passado eram realmente tão valentes, leais, altruístas, disciplinados e inequivocamente japoneses como pensamos?
A resposta é não, pelo menos segundo a nova exposição do Museu Britânico intitulada “Samurai”. Sua proposta é desmistificar a fantasia em torno desses guerreiros misteriosos e, em grande parte, pouco conhecidos — e revelar sua verdadeira história, muito mais fascinante.
Quem eram os samurais e como eles surgiram?
“Eles não eram um grupo unitário de pessoas que permaneceu o mesmo ao longo da História”, explica a curadora da exposição, Rosina Buckland.
“Acho que a percepção no Ocidente é que os samurais são guerreiros — o que certamente é verdade. Foi assim que eles surgiram e atingiram posições de poder na Idade Média.”
“Mas esta é apenas parte da história”, segundo ela.

As origens dos samurais remontam ao século 10, quando eles foram inicialmente recrutados como mercenários para as cortes imperiais. Eles evoluíram gradualmente até se tornarem aristocratas rurais.
Mas os samurais não eram galantes soldados que seguiam códigos de honra da cavalaria, como as pessoas passaram a acreditar posteriormente.
Durante as batalhas, eles costumavam usar táticas oportunistas, como emboscadas e trapaças. Muitas vezes, eles eram mais motivados pela recompensa, em terras e status, do que pelo senso de honra ou dever altruísta.
Esta visão flexível fazia com que eles também adotassem influências multiculturais e tecnologia estrangeira, o que é outra faceta surpreendente da identidade dos samurais.
A couraça da magnífica armadura dos samurais em exibição no Museu Britânico foi baseada em um desenho português. Ele tem a parte da frente pontiaguda e lados em ângulo, para desviar as balas de mosquetes.
Estas características só passaram a ser necessárias no Japão depois que o país começou a importar armas de fogo da Europa, em 1543.
Cultura é poder’
Os samurais conquistaram o poder político explorando o caos gerado pelas disputas sobre a sucessão imperial.
Em 1185, um clã controlador (os Minamoto) assumiu e estabeleceu um novo governo, paralelo à corte imperial. E, ao longo dos anos, houve ascensão e queda das dinastias dos senhores da guerra, envolvendo diversas batalhas entre os líderes dos clãs.
Mas, como indica Buckland, “mesmo naqueles estágios antigos, a cultura é extremamente importante. A cultura é poder.”
Os líderes militares eram chamados de Xóguns. Eles perceberam que não poderiam exercer a autoridade com sucesso usando a perspectiva e a mentalidade dos senhores da guerra tribais.
Por isso, eles encontraram formas de suplementar seu poderio militar com os modos de influência política mais sutis e sofisticados da sociedade cortesã.
Sua estratégia diplomática era baseada na filosofia chinesa, principalmente nas ideias de Confúcio (c.551 a.C.-479 a.C.).
“No pensamento neoconfuciano, você precisa ter equilíbrio entre o poderio militar e as habilidades culturais”, explica Buckland.
Esta ramificação aumentou o investimento em soft power (poder de influência) nas câmaras da corte.
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Os samurais têm origem no século 10 e suas lendas e mitologia permanecem vivas há séculos — Foto: Divulgação/Museu Britânico via BBC
Além de serem adeptos da arte da guerra, os samurais se familiarizaram com as artes refinadas da pintura, poesia, música, teatro e da cerimônia do chá.
Um dos objetos mais belos e inesperados da exposição é um leque com ilustrações de orquídeas, pintado por um artista samurai do século 19.
“Xógum: A gloriosa saga do Japão”, a série da Disney/FX cuja segunda temporada se encontra atualmente em fase de produção, fornece um relato ficcional de um dos pontos mais importantes da história dos samurais.
No século 16, o líder de um dos clãs, Tokugawa Ieyasu (representado na série pelo personagem Yoshii Toranaga), formou um governo tão bem sucedido que durou 250 anos. Com isso, deixou de haver grandes batalhas no Japão e os samurais passaram a assumir novas funções.
Em vez de comandarem no campo de batalha, eles agora administravam o Estado.
“Eles são os ministros, legisladores e coletores de impostos”, segundo Buckland. Eles assumiram empregos que atravessavam toda a corte, “chegando a ser guardas dos portões dos castelos”.
Mulheres samurais
Durante o novo regime, conhecido como Xogunato de Tokugawa, as famílias dos Daimyos (os lordes regionais japoneses) foram levadas a viver na sua base de poder, a cidade de Edo (atual Tóquio).
E, em relação à exposição no Museu Britânico, Buckland espera “que as pessoas se inspirem para criar novas representações dos samurais”.
A exposição Samurai está em cartaz no Museu Britânico, em Londres, até o dia 4 de maio.

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