
Miguel Lucena
Quando achava alguém realmente bom, a mãe de Vital Farias dizia, com a sabedoria simples dos sertões, que aquela criatura era uma pessoa. Não bastava ser gente, não bastava ter CPF, RG e endereço: para ser pessoa, o indivíduo precisava prestar.
Hoje, nesse mundo de individualismos vitaminados e egoísmos turbinados, encontrar uma pessoa — daquelas de verdade — virou raridade de museu. As relações sociais andam fantasiadas de simpatia, mas cheias de encenação. Nas redes sociais, então, é uma romaria de máscaras: sorrisos fabricados, humildades performáticas, empatia de vitrine.
Ser uma pessoa, no sentido que a mãe de Vital entendia, exige algo mais profundo e mais raro: honestidade de alma. É ouvir sem interesse, agir sem cálculo, falar sem veneno. É ser capaz de oferecer presença sem anúncios, sem selfie, sem curtidas.
O problema é que a pressa do mundo moderno transformou virtudes antigas em peças de museu. Generosidade virou marketing pessoal. Solidariedade virou postagem. E até a bondade passou a exigir legenda.
Ainda assim, precisamos resistir. Precisamos nos esforçar, diariamente, para sermos pessoas — dessas que prestam, que se entregam ao outro sem nota fiscal emocional. Porque, no fim das contas, ser uma pessoa continua sendo a forma mais bonita de existir.
E a mais rara.

