
Por Chico Araújo*
Provérbios 29, escrito há quase três milênios, continua a nos constranger com sua atualidade. Não é tratado dogmático, mas sabedoria prática sobre poder e justiça. Paul Ricoeur lembrava: “os textos fundadores não envelhecem”. Este capítulo prova a sentença.
Logo na abertura, a advertência é direta: governantes que rejeitam críticas endurecem-se em narcisismo e colapsam. Foucault já dizia que poder sem contraditório vira tirania frágil. No Brasil, a surdez institucional é rotina.
O versículo central é lapidar: “Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme”. Aristóteles via na justiça o fim da pólis; aqui, a legitimidade do poder se mede pelo sentimento coletivo — alegria ou gemido.
Outros trechos denunciam desperdício de recursos e exploração fiscal. Hobbes advertia: sem proteção, o contrato social se rompe. A ganância tributária e o clientelismo não são meros erros administrativos, mas violência estrutural.
A sentença final reforça: “Muitos buscam o favor do príncipe; mas é do Senhor que o homem recebe a justiça”. Arendt distingue poder de autoridade; a bajulação é efêmera, a justiça transcende cálculos humanos.
O versículo 3, muitas vezes lido de forma moralista, na verdade critica o desperdício egoísta de recursos que pertencem à comunidade. Weber mostrou que disciplina econômica e responsabilidade social são inseparáveis; quando o governante dissolve o patrimônio coletivo em luxúria ou favorecimento, antecipa a captura privada do Estado.
Já o versículo 4, ao denunciar o excesso de tributos e subornos, expõe a fragilidade da ordem social diante da exploração fiscal. A terra não se sustenta pela força, mas pela justiça. Quando o Estado se torna predador, a sociedade se desestabiliza, e o pacto político se rompe.
Por fim, a crítica à busca do favor do príncipe revela a lógica corrosiva do clientelismo. A política reduzida a favores e bajulação é teatro vazio, incapaz de gerar legitimidade. A verdadeira autoridade nasce da ética e da justiça, não da conveniência cortesã.
O paralelo com o Brasil é doloroso: corrupção sistêmica, favores, desvio de recursos e abuso fiscal repetem vícios antigos. Sem ética, a política degrada-se em espetáculo vazio. Sem justiça, não há coesão. Sem humildade, o poder implode.
Provérbios 29 não é só texto religioso: é tratado filosófico-sociológico que antecipa Platão, Aristóteles, Hobbes, Weber, Foucault e Arendt. Sua mensagem é implacável: estabilidade exige justiça; legitimidade, ética; futuro, humildade. Ignorar essa sabedoria é repetir o ciclo de gemido e ruína que ela já descreveu.
*Advogado, jornalista e teólogo. Autor de *Quando Convivi com os Ratos* (2024), *Sombras do Poder* (2025) e *Memórias de Um Repórter* (2025), pela Editora Social.*

