sábado, 17/01/26
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O Carpe diem da vida!

Ilustração gerada por IA

 

Por Chico Araújo

Carpe diem, expressão latina imortalizada pelo poeta romano Horácio (Quintus Horatius Flaccus), surge no século I a.C., durante o início do Império Romano sob o reinado de Augusto. Em sua obra Odes (Carmina), especificamente no Livro 1, Ode 11, endereçada à Leuconoé, Horácio aconselha a não indagar sobre o futuro incerto, mas sim colher o dia presente como se fosse o último. Influenciado pelo epicurismo, o poeta enfatiza a efemeridade da vida, convidando a desfrutar dos prazeres imediatos sem se prender a ansiedades ou planos longínquos, em um contexto histórico de transição política e cultural onde a estabilidade era frágil.

Essa máxima ecoa diretamente a filosofia de Epicuro, o pensador grego do século IV a.C. que fundou o epicurismo em Atenas, pregando que o prazer (hedonê) é o bem supremo, mas não em excessos hedonistas, e sim na ausência de dor (ataraxia) e na moderação. Epicuro incentivava viver o presente, evitando temores pelo futuro ou pelo desconhecido, como a morte, que ele via como irrelevante ao vivo. Assim, carpe diem pode ser visto como uma destilação romana dessa doutrina grega, adaptada ao contexto poético de Horácio, que, patrocinado por Mecenas, incorporava elementos helenísticos para promover uma vida equilibrada e sensorial.

Na tradição grega mais ampla, carpe diem contrasta e dialoga com outras escolas: os estoicos, como Sêneca (contemporâneo romano influenciado por Epicuro), valorizavam a virtude sobre o prazer, mas também alertavam contra a procrastinação e a preocupação excessiva; já os cínicos, como Diógenes, enfatizavam a simplicidade presente, rejeitando bens materiais. Diferente do platonismo, que priorizava o eterno e ideal sobre o efêmero, o epicurismo e sua herança em Horácio ancoram-se no material e no agora, promovendo uma ética prática de contentamento imediato em face da finitude humana.

Complementando carpe diem na cultura romana, surge o memento mori, uma máxima latina que significa “lembra-te de que morrerás”, servindo como lembrete constante da mortalidade para fomentar humildade e sabedoria. Originária de práticas romanas, como nos triunfos militares onde um escravo sussurrava ao general vitorioso “Respice post te! Hominem te memento!” (Olha para trás! Lembra-te de que és homem!),

enfatizava a transitoriedade do sucesso e da vida, contrastando glória efêmera com a inevitabilidade da morte. Essa tradição, influenciada por filosofias helenísticas, incentivava uma vida virtuosa e moderada, ecoando o epicurismo ao dissipar vaidades e focar no essencial presente.

Enquanto carpe diem exorta ao prazer imediato perante a brevidade da existência, memento mori reforça essa brevidade com um tom mais sóbrio, dialogando com Epicuro, que via a morte como nada a temer, e com estoicos como Epicteto, que pregavam aceitação do destino. Ambas as expressões romanas, assim, convergem na tradição grega para uma filosofia prática: viver o agora com consciência da finitude, evitando ilusões de imortalidade ou controle absoluto sobre o futuro.

Na modernidade líquida, teorizada por Zygmunt Bauman como uma sociedade de fluxos instáveis, onde relações, identidades e instituições se dissolvem em mudanças constantes e consumismo efêmero, carpe diem aplica-se como antídoto à paralisia causada pela incerteza, enquanto memento mori adiciona uma camada de reflexão crítica sobre a fragilidade das conquistas contemporâneas. Bauman argumenta que o “sólido” moderno dá lugar ao “líquido”, com laços transitórios e futuros imprevisíveis, incentivando assim a priorizar experiências presentes, como viagens impulsivas ou conexões digitais fugazes, em vez de investimentos longos que podem evaporar, com o memento mori lembrando a efemeridade pessoal em meio ao caos social.

Essa perspectiva ressoa com Mateus 6, 27, no qual Jesus indaga: “E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?”, sublinhando a futilidade da ansiedade em prolongar a vida ou controlar o incontrolável. Tanto o hedonismo moderado de Epicuro, adaptado por Horácio em carpe diem, quanto o lembrete romano de memento mori e a serenidade espiritual bíblica convergem em uma existência ancorada no presente, livre de preocupações vãs, seja pela busca de prazeres terrenos, pela humildade ante a morte ou pela confiança divina.

*Advogado, jornalista e teólogo.

 

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