quinta-feira, 19/03/26
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2026 Será o Ponto de Inflexão da República?

Imagem gerada por IA

 

Por Chico Araújo*

O Brasil ingressa em 2026 não apenas diante de mais um ciclo eleitoral, mas sob o peso de um teste decisivo de consistência institucional. Não se trata de uma crise episódica. O que está em curso é a convergência de distorções estruturais que, acumuladas, tensionam — de forma contínua e crescente — os próprios limites de sustentação da República.

A percepção social de corrupção — difusa, persistente e perigosamente naturalizada — deixou de ser exceção para se insinuar como regra informal de funcionamento. O problema já não reside apenas na existência dos desvios, mas na sua banalização. Quando o ilícito deixa de indignar, passa a organizar comportamentos. E é nesse ponto que o desvio deixa de ser anomalia para se tornar método.

Os números não permitem complacência. No âmbito da Operação Lava Jato, estimativas apontaram mais de R$ 40 bilhões em propinas e contratos fraudados, com cerca de R$ 20 bilhões devolvidos aos cofres públicos. Fraudes recentes no sistema previdenciário, envolvendo o INSS, já ultrapassam R$ 6 bilhões. Esquemas na área da saúde, espalhados por diferentes entes federativos, somam mais de R$ 3 bilhões. A Petrobras, por sua vez, reconheceu prejuízos superiores a R$ 14 bilhões decorrentes de corrupção. Some-se a isso déficits recorrentes dos Correios, frequentemente acima de R$ 1 bilhão ao ano, e episódios no sistema financeiro, como os que envolvem o Banco Master, com perdas na casa de centenas de milhões de reais.

Essas cifras não são abstrações contábeis. São a tradução concreta de um Estado que falha onde deveria funcionar. Representam escolas que não saem do papel, hospitais que não atendem, políticas públicas que não chegam. Representam, em última instância, direitos negados. Em paralelo, o país ainda convive com um patamar de 45 mil a 50 mil mortes violentas por ano, enquanto o crime organizado avança, ocupa territórios, infiltra-se na economia e desafia, de forma cada vez mais aberta, a autoridade estatal.

A equação torna-se ainda mais grave quando confrontada com a carga tributária. Com aproximadamente 33% do PIB arrecadados, o Estado brasileiro exige muito — e entrega aquém. O contribuinte, figura central e ainda assim invisibilizada, sustenta uma máquina que, em larga medida, não responde com eficiência, equidade ou integridade. A percepção de que se financiam privilégios, distorções e desperdícios já não é difusa — é concreta. E crescente.

Esse descompasso corrói o ativo mais valioso de qualquer democracia: a confiança. Pesquisas reiteram que mais de 60% da população confia pouco ou nada nos poderes constituídos. E aqui reside o ponto crítico. Como advertiu Max Weber, o Estado se sustenta na crença em sua legitimidade. Sem essa crença, preserva-se a forma — mas esvazia-se o fundamento.

A teoria ajuda a explicar o que a realidade escancara. Samuel Huntington identificou que a corrupção prospera quando a modernização avança mais rápido que a institucionalização. Guillermo O’Donnell descreveu democracias de “baixa intensidade”, nas quais direitos existem formalmente, mas não se realizam na prática. Michel Misse foi direto: em determinados contextos, o crime deixa de ser desvio e passa a integrar a própria lógica social.

No plano normativo, os alertas são igualmente severos. Hannah Arendt advertiu que a corrosão da verdade factual abre espaço para manipulação e autoritarismo. Norberto Bobbio lembrou que a essência da democracia está na capacidade de controlar o poder. Francis Fukuyama sintetizou: a erosão da confiança pública é o primeiro estágio do declínio institucional.

A análise contemporânea reforça — e aprofunda — esse diagnóstico. Douglass North demonstrou que instituições frágeis elevam o custo da vida econômica e política. Daron Acemoglu e James A. Robinson evidenciaram que nações fracassam quando suas instituições se tornam extrativas, capturadas por elites. Luigi Ferrajoli enfatiza que o Estado de Direito só se sustenta quando o poder encontra limites reais — e não meramente formais. E Raymundo Faoro já havia diagnosticado, com precisão desconcertante, a tendência histórica de apropriação do público pelo privado no Brasil.

É nesse ambiente que 2026 adquire densidade histórica. Não se trata apenas de uma eleição. Trata-se de um ponto de inflexão. Em contextos de saturação social, o processo eleitoral deixa de ser mera escolha e passa a funcionar como mecanismo de descarga de tensões acumuladas. O risco, como alertou Zygmunt Bauman, é substituir soluções estruturais por respostas rápidas — e, quase sempre, frágeis.

Ainda assim, a saída existe — e não é retórica.

Ela é, antes de tudo, institucional: fortalecer mecanismos de controle, ampliar a transparência e assegurar responsabilização efetiva, com autonomia real e capacidade operacional. É política: romper com a lógica de captura do Estado, revisar privilégios e impor critérios objetivos de desempenho e mérito. É cultural: enfrentar, sem subterfúgios, a naturalização do “jeitinho”, que corrói por dentro qualquer tentativa de reforma. E é, sobretudo, eleitoral.

O contribuinte brasileiro — que financia integralmente a máquina pública — precisa assumir sua centralidade. Não como espectador, mas como agente. Não se trata mais de indignação episódica, mas de exigência permanente. Compromisso ético, coerência e responsabilidade deixaram de ser diferenciais — são requisitos mínimos de legitimidade.

2026 não será apenas uma disputa de nomes. Será, inevitavelmente, um referendo sobre padrões. Entre a inércia e a depuração institucional, haverá uma escolha. E ela não será neutra.

A história demonstra que sistemas não colapsam apenas por choques externos, mas por degradação interna prolongada — silenciosa, progressiva e, quando percebida, já avançada demais.

O Brasil ainda dispõe de instrumentos para se reorganizar. Mas o tempo da tolerância elástica se esgota. A continuidade do atual estado de coisas já não é apenas ineficiente.

É, claramente, insustentável.

*Advogado, jornalista, autor dos livros “Quando Convivi com os Ratos” (2024), “Sombras do Poder” (2025) e “Memórias de Um Repórter” (2025), todos pela Editora Social.

*Advogado, jornalista, autor dos livros “Quando Convivi com os Ratos” (2024), “Sombras do Poder” (2025) e “Memórias de Um Repórter” (2025), todos pela Editora Social.

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